Hoje, eu pisei no vômito de alguém. Dei conta de mim e eu estava em cima dos restos de alguém.
Respiro fundo, nojo. Olho de novo...
Líquido perfeitamente disforme, mimesis exata do turbilhão de restos arredios que alguém botou para fora. Eu apaguei meu cigarro em alguém, repousava ele apagado, sem exalar os últimos suspiros de mais 4.700 substâncias tóxicas. Hoje eu pisei no vômito de alguém e tinha cheiro de vômito. Cheiro de vômito é gênero, mas de que espécie? Daqueles libertadores, únicos, reanimadores, novos.
Hoje eu pisei no vômito de alguém, um vômito sem concreto. Era vermelho, um vômito vermelho e sem concreto. Um vermelho morto, não um vermelho vivo. Vômito de restos, não de sangue. Eu acho muito íntimo pisar nos restos de alguém. Hoje eu pisei na intimidade vermelha, "inconcreta" e fedorenta de alguém. Vomitar fede. É covarde vomitar e sair andando e não alertar ao cara do cigarro que ele vai se juntar aos restos dele?
Conheço a intimidade de alguém que não conheço. Mexo meus pés, ainda estou nos restos de alguém. Eu acho que conheço esses restos. Me sinto íntimo deles. Sinto nojo. Eu saio devagar. Olho pra trás e você me segue em minhas próprias pegadas. Sinto seu cheiro forte atrás de mim, já não mais vejo sua poça de restos, mas vejo o resto de seus restos. Deixo pegadas com o resto de alguém.
Ano mais rápido, fujo da pessoa íntima que não conheço, fujo de mim mesmo, carrego os restos de alguém. Hoje eu pisei nos restos de alguém. Hoje pisei no resto vermelho morto, "inconcreto", fedorento e pegajoso de alguém. Me sinto sujo. Como lavar? Jogando fora.
Hoje, eu juro que pisei no vômito de alguém.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Crise de meia meia idade
Longe de mim seguir modinhas e por isso estou eu aqui em uma espécie de crise da meia meia idade. Digo meia meia idade porque mesmo fumando, espero passar dos 40 e com otimismo chegar aos 80 anos bem ou mal vividos.
Deixo um pouco de lado os textos de direito, ler em inglês me cansa, talvez eu não devesse ter levado os cursos de inglês da forma que levei, talvez. Hoje é um dia de deixar umas certezas de lado.
Eu nunca me arriscaria – às vezes volto as certezas – a escrever a minha própria biografia. Ao contrário do que as pessoa poderiam pensar, seria mais por medo de ser muito crítico do que por tentação a adulação própria, um onanismo autobiográfico. Deixarei a minha biografia para os outros, para aqueles que forem contar oralmente a minha história ( parentes e amigos ) e para as orelhas dos livros de direito, em que eu não serei eu mesmo, mas a construção de um jurista que os outros farão. Penso eu que sou maior que as leis, isso é algo que eu tenho que repetir todos os dias.
Como um típico sofredor da moléstia que eu mesmo criei – a crise da meia meia idade – eu repenso a minha vida e chego no bordão da minha professora de literatura, o eterno retorno nietzschiano. O que é isso ? Filosoficamente eu não sei, mas na minha vida funciona como um fenômeno empírico, uma espécie de novela do manoel carlos em que o personagem principal não muda muito e o enredo continua basicamente o mesmo e com atores um pouco diferentes; o cenário infelizmente não é o leblon, mas a Paris do Rio de Janeiro, a praça afonso pena.
Com os poderes investidos por mim mesmo, por ser autor do texto, eu fico imaginando o que eu faria se eu voltasse no tempo e acompanhasse uma meia dúzia de fatos determinantes para quem eu sou hoje, como eu reagiria ?
Imediatamente eu me vejo no bar das putas, com meia dúzia de comunistóides hoje provavelmente em estado vegetativo por uso prolongado de maconha, pondo, pela primeira vez, um cigarro na boca. A minha reação imediata seria pensar em dar um tapa na minha própria mão de 15 anos. Mas será mesmo que valeria a pena ? Eu falaria: 'pare com essa porra, animal, isso daqui a um tempo vai se tornar o termômetro da sua vida!' Viram como eu sou chato? Pensando melhor, eu nada faria …
Novamente 15 anos, meu turbilhão de lembranças me põe junto da menina que eu amava - uma menina muito religiosa, que só beijava se namorasse ( acho que mudei meu tipo...) e que gostava de mim, mas que por eu não ser da igreja não poderíamos ficar juntos. Se nesse dia, em frente ao bebedouro, eu roubasse um beijo seu ? Provavelmente estaríamos namorando até hoje, eu seria da igreja, faria valer o esteriótipo de ultra conservador de direita e virgem. Eu não te beijaria novamente, não mais por falta de 'atitude', mas por alguma coisa que eu ainda não sei explicar.
Passo aos 16, estou na lapa, numa choppada, bêbado de cachaça artesanal e me declaro pra mulher mais marcante da minha vida, o início de um jogo que durou dois anos e que no final percebi que joguei sozinho a maior parte do tempo. Eu posso me impedir de falar, eu me impediria ? Ainda não sei...
Estou com 17 agora, meu pai em Paris e eu sozinho em casa, decidindo sem saber a minha vida. Último dia de inscrição para o vestibular da UERJ e eu optei por letras. Os caminhos, jeito bonito para não falar que o meu pai me obrigou, me levaram para a FND. Até pouco tempo, eu me arrependeria, voltaria no tempo, me arrancaria da cadeira e botaria lá DIREITO manhã/ tarde com a maior certeza do mundo !
Agora, eu tenho certeza – voltei momentaneamente a elas – de que não seria justo, eu aprendo muita coisa na FND, conheci inexplicavelmente tanta gente nova ( algumas que inexplicavelmente se comportam como gente velha, olha o eterno retorno desse tal de Nietzsche) que me provocaram tantas sensações – boas, ótimas, horríveis, pavorosas – que eu não me arrependo. Me arrependo de atitudes que tomei lá dentro, mas de estar lá não.
Saio dessa minha breve crise de meia meia idade, podendo responder a Fernando Pessoa que a minha alma não é pequena, mas que também não é tão grande assim. Eu faria muitas coisas de modo diferente, mas fundamentalmente eu gosto do resultado.
Agora, preciso terminar o texto para voltar ao meu texto do grupo de pesquisa, terminar o meu cigarro e me preparar para mais tarde discutir uma discussão sem fim que já terminou sem nunca ter começado. Assinado, Eu com 20 vinte anos.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Nosso Tom
Ao som de bossa nova
me delicio hoje em tom.
sinto saudade dos nossos momentos
capturados pela nossa rolleiflex.
Deles desfruto apenas em imaginação
dos quadros que se tornam mais vivos pelo fosco da desilusão.
Dos desencontros de nossos caminhos,
me resta muita gratidão.
Não sendo do seu grupo de desafinados,
você me fez perceber que havia água para se beber
para matar a sede, que lá no fundo do peito, sente um coração.
Um brinde!
me delicio hoje em tom.
sinto saudade dos nossos momentos
capturados pela nossa rolleiflex.
Deles desfruto apenas em imaginação
dos quadros que se tornam mais vivos pelo fosco da desilusão.
Dos desencontros de nossos caminhos,
me resta muita gratidão.
Não sendo do seu grupo de desafinados,
você me fez perceber que havia água para se beber
para matar a sede, que lá no fundo do peito, sente um coração.
Um brinde!
Assinar:
Postagens (Atom)