terça-feira, 28 de agosto de 2012

Hoje eu pisei no vômito de alguém

Hoje, eu pisei no vômito de alguém. Dei conta de mim e eu estava em cima dos restos de alguém.
Respiro fundo, nojo. Olho de novo...
Líquido perfeitamente disforme, mimesis exata do turbilhão de restos arredios que alguém botou para fora. Eu apaguei meu cigarro em alguém, repousava ele apagado, sem exalar os últimos suspiros de mais 4.700 substâncias tóxicas. Hoje eu pisei no vômito de alguém e tinha cheiro de vômito. Cheiro de vômito é gênero, mas de que espécie? Daqueles libertadores, únicos, reanimadores, novos.
Hoje eu pisei no vômito de alguém, um vômito sem concreto. Era vermelho, um vômito vermelho e sem concreto. Um vermelho morto, não um vermelho vivo. Vômito de restos, não de sangue. Eu acho muito íntimo pisar nos restos de alguém. Hoje eu pisei na intimidade vermelha, "inconcreta" e fedorenta de alguém. Vomitar fede. É covarde vomitar e sair andando e não alertar ao cara do cigarro que ele vai se juntar aos restos dele?
Conheço a intimidade de alguém que não conheço. Mexo meus pés, ainda estou nos restos de alguém. Eu acho que conheço esses restos. Me sinto íntimo deles. Sinto nojo. Eu saio devagar. Olho pra trás e você me segue em minhas próprias pegadas. Sinto seu cheiro forte atrás de mim, já não mais vejo sua poça de restos, mas vejo o resto de seus restos. Deixo pegadas com o resto de alguém.
Ano mais rápido, fujo da pessoa íntima que não conheço, fujo de mim mesmo, carrego os restos de alguém. Hoje eu pisei nos restos de alguém. Hoje pisei no resto vermelho morto, "inconcreto", fedorento e pegajoso de alguém. Me sinto sujo. Como lavar? Jogando fora.
Hoje, eu juro que pisei no vômito de alguém.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Crise de meia meia idade

Longe de mim seguir modinhas e por isso estou eu aqui em uma espécie de crise da meia meia idade. Digo meia meia idade porque mesmo fumando, espero passar dos 40 e com otimismo chegar aos 80 anos bem ou mal vividos.
Deixo um pouco de lado os textos de direito, ler em inglês me cansa, talvez eu não devesse ter levado os cursos de inglês da forma que levei, talvez. Hoje é um dia de deixar umas certezas de lado.
Eu nunca me arriscaria – às vezes volto as certezas – a escrever a minha própria biografia. Ao contrário do que as pessoa poderiam pensar, seria mais por medo de ser muito crítico do que por tentação a adulação própria, um onanismo autobiográfico. Deixarei a minha biografia para os outros, para aqueles que forem contar oralmente a minha história ( parentes e amigos ) e para as orelhas dos livros de direito, em que eu não serei eu mesmo, mas a construção de um jurista que os outros farão. Penso eu que sou maior que as leis, isso é algo que eu tenho que repetir todos os dias.
Como um típico sofredor da moléstia que eu mesmo criei – a crise da meia meia idade – eu repenso a minha vida e chego no bordão da minha professora de literatura, o eterno retorno nietzschiano. O que é isso ? Filosoficamente eu não sei, mas na minha vida funciona como um fenômeno empírico, uma espécie de novela do manoel carlos em que o personagem principal não muda muito e o enredo continua basicamente o mesmo e com atores um pouco diferentes; o cenário infelizmente não é o leblon, mas a Paris do Rio de Janeiro, a praça afonso pena.
Com os poderes investidos por mim mesmo, por ser autor do texto, eu fico imaginando o que eu faria se eu voltasse no tempo e acompanhasse uma meia dúzia de fatos determinantes para quem eu sou hoje, como eu reagiria ?
Imediatamente eu me vejo no bar das putas, com meia dúzia de comunistóides hoje provavelmente em estado vegetativo por uso prolongado de maconha, pondo, pela primeira vez, um cigarro na boca. A minha reação imediata seria pensar em dar um tapa na minha própria mão de 15 anos. Mas será mesmo que valeria a pena ? Eu falaria: 'pare com essa porra, animal, isso daqui a um tempo vai se tornar o termômetro da sua vida!' Viram como eu sou chato? Pensando melhor, eu nada faria …
Novamente 15 anos, meu turbilhão de lembranças me põe junto da menina que eu amava - uma menina muito religiosa, que só beijava se namorasse ( acho que mudei meu tipo...) e que gostava de mim, mas que por eu não ser da igreja não poderíamos ficar juntos. Se nesse dia, em frente ao bebedouro, eu roubasse um beijo seu ? Provavelmente estaríamos namorando até hoje, eu seria da igreja, faria valer o esteriótipo de ultra conservador de direita e virgem. Eu não te beijaria novamente, não mais por falta de 'atitude', mas por alguma coisa que eu ainda não sei explicar.
Passo aos 16, estou na lapa, numa choppada, bêbado de cachaça artesanal e me declaro pra mulher mais marcante da minha vida, o início de um jogo que durou dois anos e que no final percebi que joguei sozinho a maior parte do tempo. Eu posso me impedir de falar, eu me impediria ? Ainda não sei...
Estou com 17 agora, meu pai em Paris e eu sozinho em casa, decidindo sem saber a minha vida. Último dia de inscrição para o vestibular da UERJ e eu optei por letras. Os caminhos, jeito bonito para não falar que o meu pai me obrigou, me levaram para a FND. Até pouco tempo, eu me arrependeria, voltaria no tempo, me arrancaria da cadeira e botaria lá DIREITO manhã/ tarde com a maior certeza do mundo !
Agora, eu tenho certeza – voltei momentaneamente a elas – de que não seria justo, eu aprendo muita coisa na FND, conheci inexplicavelmente tanta gente nova ( algumas que inexplicavelmente se comportam como gente velha, olha o eterno retorno desse tal de Nietzsche) que me provocaram tantas sensações – boas, ótimas, horríveis, pavorosas – que eu não me arrependo. Me arrependo de atitudes que tomei lá dentro, mas de estar lá não. 
Saio dessa minha breve crise de meia meia idade, podendo responder a Fernando Pessoa que a minha alma não é pequena, mas que também não é tão grande assim. Eu faria muitas coisas de modo diferente, mas fundamentalmente eu gosto do resultado.
Agora, preciso terminar o texto para voltar ao meu texto do grupo de pesquisa, terminar o meu cigarro e me preparar para mais tarde discutir uma discussão sem fim que já terminou sem nunca ter começado. Assinado, Eu com 20 vinte anos.  

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Nosso Tom

Ao som de bossa nova
me delicio hoje em tom.
sinto saudade dos nossos momentos
capturados pela nossa rolleiflex.
Deles desfruto apenas em imaginação
dos quadros que se tornam mais vivos pelo fosco da desilusão.
Dos desencontros de nossos caminhos,
me resta muita gratidão.
Não sendo do seu grupo de desafinados,
você me fez perceber que havia água para se beber
para matar a sede, que lá no fundo do peito, sente um coração.

Um brinde!

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O Retorno ao Olimpo

Éramos pretensiosos. Nos sentíamos deuses, encastelávamos em nosso olimpo e nos dedicávamos a destilar nosso fino veneno aos reles mortais. Construímos, nós mesmos, uma idealização. Trocávamos elogios e afagos, salientávamos nosso amor dito incondicional e perpétuo. Somos deuses, per si, eternos.
Como pronunciado pelos corvos alvos, descemos ao mundo, nos tornamos mundanos. Descobrimos que somos falíveis, trouxemos ao olimpo a mentira, a paixão, traição, o rancor e o arrependimento. Nos fracionamos, abandonamos o olimpo, destilamos veneno àqueles que destilaram veneno conosco aos reles mortais.
Não me entendam como Nostradamus que está aqui a vaticinar o fim dos tempos, o fim da era dos deuses. Quero, muito pelo contrário, incentivar o retorno, a aceitação mútua de que somos falíveis, humanos, mundanos. Descemos do olimpo, encerramos a belle époque é verdade, mas em momento algum o sentimento que nos eternizou morreu. O amor - o verdadeiro, o saudável, por favor - não morre, se reinventa.
Eu quero me reinventar com vocês.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Ao arrepio do toque

Escrevo com as mãos de quem sonha.

Olhos fixos na brancura do papel
me remetem imediatamente à alvidez de sua pele.
Corpo esguio, lindo, de uma mulher sem exageros.
me deparo com seus olhos - de cores ao sabor das emoções.
ingênuo aquele que se limita às cores físicas. Seus olhos são quadros, quadros de arte.
Arte não se expressa. Se tenta atingir. Olhos de Monet.

Desço as pontas de meus dedos aos seus lábios - abertos em verdades, sorrisos.
Sorrio ao vê-la sorrir.

Toco seu corpo em carícias - expressões gestuais de admiração limitadas em ação. Espero que essas letras toquem você.

Deparo meus lábios em seu pescoço, confusão de sensações. O delicioso cheiro de sua pele me toca, perfume. Perfume de mulher.

Subo meus lábios aos seus ...
As palavras dos homens acabam, as sensações apenas começam.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Família

Estava refletindo, desde a minha aula de instituições de direito romano, sobre o papel contemporâneo da família. A perda do status de uma instituição mimética da organicidade do Estado- representada pelo pater familis- para a valoração da família como um instrumento, um meio, da felicidade, ou melhor, para a promoção da dignidade humana.Esse novo papel traz um rico debate sobre o conflito entre a "autonomia vs libertinagem."
Todos que me conhecem sabem o respeito que tenho pela minha família e pela sua marca imediata em mim- o meu sobrenome. Tenho inclusive um certo ressentimento de não ter nascido na época da república velha em que o meu sobrenome combinaria perfeitamente com o cargo de presidente. Presidente Pereira Perez. O que acha leitor?
Voltando a questão, para exercermos a nossa autonomia devemos gozar de liberdade. Mas só se exerce liberdade com o mínimo de responsabilidade moral que é passada pela família e complementada pelo contexto de mundo em que vivemos. Tenho o prazer de conviver com a minha família e me enriquecer com a sua história: seu passado que aprendo com meus pais e avós; seu presente que construo e seu futuro que me sinto sendo preparado para o papel de protagonista.
A relação entre autonomia e libertinagem se esvai para dar início a uma relação de continuidade e transformações que só a maturidade construída em um meio permeável entre você e a sua família pode construir. O exemplo da mudança se reflete no uso de pronomes retos: O "eu" e o "eles" transformam-se em "nós".
Tudo isso, leitor, é para te chamar a refletir sobre quem você é. A qual pedaço de mundo você pertence? A qual você quer pertencer?

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Roberto Perez

A convite do meu querido amigo e futuro Ministro do STF, Roberto P. Perez, terei o prazer de participar deste blog, expondo aqui algumas reflexões. Minha primeira - e talvez mais difícil – tarefa será apresentar em meros caracteres um Roberto que eu tive a sorte de encontrar em uma sala de aula e de trazer para a minha vida. Quero antes informá-lo, Leitor, que este texto tornou-se um imenso desafio, pois será impossível igualá-lo àquele escrito pelo meu companheiro de blog, cujo intelecto superior é capaz de produzir verdadeiras obras literárias.

Para começar, preciso dizer que o Roberto se encaixa na categoria de Pessoa Única, daquelas que basta conhecer um pouco mais para ter certeza de que ela lhe acrescentará muitas coisas. Essas pessoas são verdadeiras relíquias e tem participação especial na construção da nossa historia. Parabéns, Roberto Perez, você é uma delas. Sinta-se honrado, pois os meus filhos vão ouvir falar de você. Saiba que não é nada fácil atingir a pontuação máxima na Escala Bia de Relacionamentos, ainda que a sua obtusidade o faça perder pontos frequentemente.

Meus filhos saberão também que na realidade existem dois Robertos totalmente diferentes, permanecendo em constante batalha para atingir o equilíbrio. O primeiro é carinhosamente chamado de obtuso, que aqui não quer dizer ignorância, mas sim insensibilidade com uma pitada de humor negro. Esse Roberto é fácil de gostar, mas difícil de conviver e impossível de discutir. Já o segundo, é dono de uma sensibilidade notável, a qual está presente nos textos maravilhosos que ele escreve. Esse costuma ser carinhoso e odeia jogos de mímica. Acima de tudo, gosta de preservar as poucas e boas amizades. Ainda que eu goste mais do segundo, tenho que admitir que o primeiro me diverte com seus comentários cheios de veneno.

Espero que com este blog você, leitor, consiga perceber e admirar toda a complexidade do meu amigo Roberto Perez e que possa gostar tanto dele como eu gosto.