Hoje, eu pisei no vômito de alguém. Dei conta de mim e eu estava em cima dos restos de alguém.
Respiro fundo, nojo. Olho de novo...
Líquido perfeitamente disforme, mimesis exata do turbilhão de restos arredios que alguém botou para fora. Eu apaguei meu cigarro em alguém, repousava ele apagado, sem exalar os últimos suspiros de mais 4.700 substâncias tóxicas. Hoje eu pisei no vômito de alguém e tinha cheiro de vômito. Cheiro de vômito é gênero, mas de que espécie? Daqueles libertadores, únicos, reanimadores, novos.
Hoje eu pisei no vômito de alguém, um vômito sem concreto. Era vermelho, um vômito vermelho e sem concreto. Um vermelho morto, não um vermelho vivo. Vômito de restos, não de sangue. Eu acho muito íntimo pisar nos restos de alguém. Hoje eu pisei na intimidade vermelha, "inconcreta" e fedorenta de alguém. Vomitar fede. É covarde vomitar e sair andando e não alertar ao cara do cigarro que ele vai se juntar aos restos dele?
Conheço a intimidade de alguém que não conheço. Mexo meus pés, ainda estou nos restos de alguém. Eu acho que conheço esses restos. Me sinto íntimo deles. Sinto nojo. Eu saio devagar. Olho pra trás e você me segue em minhas próprias pegadas. Sinto seu cheiro forte atrás de mim, já não mais vejo sua poça de restos, mas vejo o resto de seus restos. Deixo pegadas com o resto de alguém.
Ano mais rápido, fujo da pessoa íntima que não conheço, fujo de mim mesmo, carrego os restos de alguém. Hoje eu pisei nos restos de alguém. Hoje pisei no resto vermelho morto, "inconcreto", fedorento e pegajoso de alguém. Me sinto sujo. Como lavar? Jogando fora.
Hoje, eu juro que pisei no vômito de alguém.
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